miguelbmiranda@sapo.pt

Saturday, May 01, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 33 - A Fonte Santa




  Comandante Guélas

Série Paço de Arcos
 
O Peidão era aquele tipo de adolescente que todas as mães sonhavam, com um sentido sóbrio da realidade e da sua proporção. Filho de militar, neto de militar, menino da Luz, cabelo rapado, cabedal a perder de vista, enfim, um currículo que daria com toda a certeza para um qualquer crepúsculo. A sorte (ou terá sido azar? Maldição?) de se cruzar com ele calhou à menina mais prendada de Oeiras, a Aninhas, santinha de aspecto e de feitio. O soberbo bigode do rapaz cruzou-se com os grandes olhos azuis da menina e ele sentiu uma silenciosa tomada de consciência do seu novo estado por esta menina que pensava ser uma queque da Avenida de Roma, enquanto que ela manteve-se frágil e embevecida pelo amor. Um mês depois o adolescente enganou-se na hora de ir levar a sua querida a casa e deu de caras com a família toda reunida. Beijinho nas senhoras, aperto de mão aos homens e no fim…engano…tentativa de beijinho num primo que chegou a colocar a cara à disposição, mas que à última o Peidão identificou como macho, apesar de ter o cabelo a tocar-lhe nos ombros. A apresentação estava feita. Mas voltemos ao início da relação, que começou dentro da Feira Popular onde ambos estudavam. O Peidão apresentou-se com nome próprio, mas no dia em que resolveu levar a namorada ao local onde estavam os amigos teve de se confessar, descobrindo que entre o passado e o presente nada mudara. Assim, uma vez Peidão, sempre Peidão, a família compensava esta nódoa na alma do rapazinho. E fez bem em abrir-se à namorada porque a recepção no café foi acompanhada por um coro monumental de “Peidões". Mas foi a viagem ao Algarve de mota que os levou ao grande e definitivo confronto com o destino.
- Confie em mim, – disse o jovem, firme e hirto como uma barra de ferro, ao futuro sogro. – Andar de mota comigo é seguro, e dá prazer (entre dentes), garanto-lhe que a sua catequista virá inteirinha para casa.
À palavra de filho e neto de generais não havia como recusar, uma jóia destas só aparecia de 100 em 100 anos, era pegar ou largar. E uma semana depois o Peidão foi buscar a Aninhas a casa e descobriu que não tinha lugar na mota para ela, ocupada com sacos, remos, canoa, tenda. Como a rapariga era despachada, trepou para a máquina e lá arranjou um buraquinho. Foram enlatados, mas felizes, era uma luta entre o real e a fantasia! O primeiro incidente ocorreu a meio do caminho quando sentiram um abanão e a Aninhas alertou para a saída de um dos sacos. Havias cuecas de ambos espalhadas pelo asfalto quente do Alentejo profundo, sinal de que no amor tudo era possível. A primeira paragem foi na Zambujeira do Mar e o campismo selvagem contemplou uma tenda com entrada obrigatória de gatas e sem duplo tecto, mas com uma vista magnífica sobre a praia. E ao lado havia a "Fonte dos Amores” de onde brotava um fio de água que enchia constantemente garrafões de “peregrinos”, que se aventuravam a subir uma escadaria que desaparecia lá para os confins da praia. Com a chegada destes dois meninos vindos directamente da Costa do Estoril, o serviço de abastecimento das almas passou também a banhos públicos. Mas como é que se conseguiu tal feito, se o que saia do tubinho era um mísero fio de água que demorava meia hora a encher um garrafão? O Peidão era um rapazito que se adaptava a todas as situações, por isso é que era “de comer e chorar por mais”. Pôs-se de imediato à procura da nascente e deu logo de caras com uma porta selada que se encontrava por cima da bica. Cinco minutos depois estava pendurado a encher um balde e a atirá-lo para cima da sua Santinha, que aproveitou para se ensaboar, ser ensaboada e pôr champô. E os baldes foram tantos e tão rápidos, que da bica já saia uma água completamente turva, sinal de que o interior da “Fonte Santa” estava em convulsão.
- Vem aí alguém, – avisou a jovem ex-catequista indo sentar-se no banquinho do miradouro.
O Peidão fechou a portinhola e juntou-se à namorada, abraçando-a com amor. Ambos estavam carregadinhos de espuma da cabeça aos pés quando o “turista local” chegou. Pôs o garrafão na boca da bica e sentou-se a fumar um mata-ratos, olhando desconfiado para aqueles estranhos “camones” cheios de espuma do mar. Afinal, o quotidiano não era assim tão normal como ele pensava. De tempos a tempos o casal de pombinhos espreitava pelo ombro um do outro e lá viam a água turva a cair lentamente no garrafão. Iria ser toda consumida e de certeza entupir os rins ao velho e mandá-lo ir viver para outra freguesia. Mal o aldeão saiu precipitaram-se para a bica e trataram de finalizar a higiene. Quando saíram do local, de “Fonte Santa” só tinha o nome, porque do tubo não saia nem uma pinga. Abandonaram a região cedo com o fresco da manhã e rumaram em direcção a Aljezur e no dia a seguir a este montaram tenda em Lagos, e depois em Quarteira, e quando iam em direcção a Faro a mota teve um furo no pneu da frente e deitou-se, obrigando os motociclistas a esfregarem as pernas desnudadas e os braços bronzeados no alcatrão de Boliqueime, e tudo isto na presença de um carro da GNR que ia atrás. A Aninhas foi a primeira a pôr-se de pé, e com os braços ensanguentados e metade do biquini conseguiu que ninguém passasse por cima do seu tesouro. A assistência de uma casa próxima foi rápida, saiu de lá uma senhora avantajada que ofereceu guarida a todos, chamou a ambulância e ainda teve tempo para mostrar os arranjos de flores que fazia para funerais, ao mesmo tempo que dava em mão própria um cartãozinho ao Peidão, para futuras necessidades. Mas ele estava mais para lá do que para cá. Foram atendidos por um médico com bronzeado de nascença, raro para a época, que se interrogava com a origem do paciente que roncava desalmadamente numa cadeira por detrás dos feridos que tinham acabado de chegar. O Peidão ainda ouviu a explicação da enfermeira que contou ser um brutamontes que entrara a meio da noite a partir tudo, só parando com uma dose cavalar de um calmante, que já estaria a perder o efeito. O doutor pincelou os miúdos e pô-los na rua num abrir e fechar de olhos, ao mesmo tempo que desaparecia nos confins do hospital. A Santinha foi entregue ao pai uma semana depois….toda partidinha. No dia 11 de Junho de 1988, oito anos após a “Fonte Santa”, um amigo padre declarou-os unidos para sempre!

Saturday, April 17, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 32 - Tiros para que te quero


-->
Comandante Guélas
Série Paço de Arcos

Quis o destino que uma soberba espingarda porção-de-ar Diana 38, com mira telescópica, fosse parar às mãos do adolescente mais responsável do alto de Paço de Arcos, que tinha uma alcunha não muito amiga do ambiente, Peidão, ganha a muito custo no Colégio Militar, onde durante alguns anos ostentara o número 191! O primeiro ensaio de tiro foi feito no mirante da casa onde morava o gang dos dez irmãos, tendo como alvo as cortinas do vizinho, que nesse dia esvoaçavam graciosamente ao sabor do vento. Ao aperceber-se que podiam fazer a vez dos pardais, o Milhas agarrou nos manos, a Ínclita Geração, e refugiou-se nos quartos. A resposta não se fez tardar, o amigo desceu à cave para ir buscar a sua carabina e responder à ameaça, não sem antes o Janeca partir o vidro da casa de banho quando tentou assistir ao contra-ataque do mano. Desde esse momento ficaram cientes de que quando o papá chegasse haveria chicotadas psicológicas e físicas para todos. O campeonato de tiro foi ganho pelo Graise, com distinção, depois de ter furado inúmeras vezes as cortinas, que deixaram de esvoaçar porque o ar já passava pelos buracos, e molestado duas vezes o traseiro do Quicas. O Milhas mostrou ser um adversário sem espírito desportivo, uma vez que disparou contra a pobre da Diana 38, numa altura em que o Peidão e o Chico Paulo, dois jovens com tendências missionárias, a abandonaram depois de terem sido emboscados quando tentavam arrebentar com o outro vidro da casa de banho, não fosse o Janeca parti-lo também e aleijar-se. À noite a festa foi outra, e consistiu num assalto à casa do Conan Vargas, o único paçoarcoense que dava “sete seguidas sem ver a luz do Sol (sic), e que estava sozinho em casa com as manas. Mas macho que era macho estava sempre em alerta, não fosse alguma fêmea ousar passar por perto, e desta vez também não foi diferente. Apercebeu-se da invasão e ainda foi a tempo de se trancar por dentro, excepto um dos quartos do rés-do-chão. Conseguiu sentir a respiração dos vinte amigos a arrastar os móveis para o jardim e passou ao contra ataque no momento em que eles se prepararam para trepar ao primeiro andar por uma das varandas. Montou uma emboscada com a sua carabina de ar comprimido e acertou em cheio na barriga do Peidão, que desceu em queda livre, agarrado ao Pilas, tendo ainda tempo o Pontas de evitar o esmagamento. Como o Mac Macléu via mal de noite, e alguns diziam que também de dia, a segunda chumbada apanhou-o de costas e o chumbo foi de encontro ao seu bumbum. Respondeu com um “ai” e com um calhau, que passou a rasar a cabeça do Conan e o vidro. Foi altura de içarem todos a bandeira da paz e irem para os copos. O dia seguinte iria ser de guerra: brincar aos polícias e ladrões na quinta ao lado…à chumbada! Logo de início foram definidas regras, estavam proibidos de atirar às cabeças uns dos outros. Era justo e mostrava que estes rapazes, que provinham das melhores famílias de Paço de Arcos, tinham muito bom senso … até quando brincavam. O Conan Vargas apresentou-se no campo de batalha disposto a vencer, trazendo um coldre com uma soberba pistola e o camuflado do jardineiro, o senhor José, que estava de relações cortadas com a mulher e como tal acampara, com um cadeirão de verga, no terreno ao lado da casa onde morava o Bugio. Para que a luta fosse justa, trouxe para o Graise a espingarda da noite anterior. O Peidão colocara a mira-telescópica na sua Diana 38 para amedrontar os adversários, não deixando assim os pergaminhos de descendente de militares em mãos alheias. Por unanimidade o Zé dos Porquinhos e o irmão foram escolhidos como lebres, para assim os amigos poderem afinar as miras. Ainda protestaram, mas foram sensatos quando se aperceberam que a decisão era irreversível. Correram para os lados das colmeias e o primeiro a disparar foi o guerreiro da pistola, que causou o riso geral quando apertou o gatilho: a bala demorou a sair, fez um percurso em arco, todos a acompanharam até cair no chão e os pardais nem se mexeram. Seguiu-se o Peidão e a sua elegante mira, que espreitava para um lado e acertava no outro, ou seja, tirou o talho ao João e acertou no cu do Zé, que foi aos berros para casa, não a dizer “ó mãe dá-me uma carcaça que eu estou cheio de traça”, porque essa frase era exclusiva do mano, mas sim, “os meus amigos estão a dar-me tiros”. Estranhas brincadeiras! Quanto ao bacamarte do Graise, disparou várias vezes, mas o chumbo recusou-se sempre a sair, optando por ficar a dormir a meio do cano. Só ao fim de algum tempo, e após várias insistências, lá caiu aos pés do inconsequente adolescente. A inocente brincadeira foi bruscamente interrompida com a aproximação da dona Rosa, mãe das lebres, que vinha pedir explicações com uma enxada nas mãos.

Monday, April 05, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 31 - Jomarte


-->
 Comandante Guélas
Série Paço de Arcos

Ainda o século XXI era uma miragem e já Paço de Arcos possuía um espaço comercial equivalente ao actual Shoopping de Oeiras: a Jomarte! Aqui se realizavam os sonhos de todas as idades, as montras eram um hino ao bom-gosto e ao profissionalismo, puro e duro. E tudo isto se devia a um visionário único no mundo, o elegante Bigornas, proprietário desta oitava maravilha, que combinava fotografia, biblioteca e ferro-velho. A vitrina principal ostentava para a rua o maior cabeçudo da região, o auto-proclamado Rudolfo Valentino da Tapada do Mocho. Tinha ido expressamente falar com o responsável pela galeria pedindo-lhe, de joelhos, que expusesse a sua sensual cara, avaliação exclusiva do próprio, para que as miúdas nunca mais esquecessem tão vil e formoso focinho. Ficou então ao lado das fotos do casamento do Craveiro Lopes e da Quitéria Barbuda, uma iniciativa do Centro Paroquial de Paço de Arcos, que representou para a noiva a possibilidade de passar um dia da sua vida sem levar nos cornos, situação que se ia alterando no final da boda quando o Craveiro pegou numa cadeira para tentar arrear na dama. Assim, o cabeçudo estava bem acompanhado, até dava a impressão de ser o rebento do casal mais famoso da vila. Quando o cliente entrava na loja deparava de imediato com o motor do “peidociclo” do mano Zé e com um vasto balcão, semeado de fotografias de passe de metade de Paço de Arcos, todas a preto e branco. E a loja era tão original, que o cliente poderia ter de ficar o dia todo à espera para ser atendido, arriscando-se a maior parte das vezes a ter de voltar no dia seguinte, caso o senhor Bigornas tivesse iniciado, na divisão dos fundos, de acesso reservado ao Gang, a leitura de um novo livro de quadradinhos. E geralmente era isto que acontecia! Para lá do balcão a gruta abria-se numa vasta galeria, a sala das fotos, com palco e cortinas de espectáculo, onde o patrão limpava as mãos após uma mudança de óleo. Nestas ocasiões o senhor Bigornas colocava-se atrás de uma caixa com um trapo, punha a mão numa determinada posição, dava ordem para olharem para ela, e mal os olhos se fixavam no sensual dedo gordo com óleo (de 20.000Km), “zás”, saia um relâmpago que punha toda a gente como o OMO, incluindo o único não caucasiano da zona, o Zé Preto. E pronto, uma semana depois era só ir levantar a obra de arte, constituída pelas fotos e uma saqueta de plástico que ostentava o nome “Jomarte” e um desenho estilizado que representava o artista em pose de trabalho, atrás de um objecto. Nunca se soube, no entanto, se era uma mota ou uma máquina fotográfica. Após recolher o produto o cliente ia sempre para a estação de Paço de Arcos renovar o passe. Já no fim da vida da loja, com os clientes a dar a volta à praceta, o Bigornas resolveu comprar a máquina de fotocópias mais moderna da Península Ibérica, começando de imediato a dar desconto aos estudantes. Mas foi sol de pouca dura. Ao fim de uma resma de papel estava de rastos e cheio de saudades dos seus “Major Alvega”.

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 30 - O Primo do João da Quinta



-->
Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

O João da Quinta tinha um primo com menos habilitações académicas, ou seja, nunca fora à Escola. E para agravar a situação, era surdo-mudo. À conta destas deficiências todas era o único a passar a ponte sobre o Tejo com o “peidociclo”, e de borla, porque quando a funcionária o tentava informar de que as motas de cinquenta centímetros cúbicos eram proibidas naquele local, a cabeça do primo inchava de raiva, ficando vincada na testa a placa que lhe tinham posto após o último desastre, em que marrara contra uma árvore depois de ter descido um barranco com a sua Zundapp. Para se safar daquele bajoulo vestido de preto e a cheirar a estrume, mesmo depois dos ventos da ponte lhe terem feito uma limpeza a seco, abriam-lhe a cancela e ele lá ia à sua vida. Por isso para este surdo-mudo de um só neurónio não havia barreiras para o seu “peidociclo”. E como era um homem livre às vezes aparecia de surpresa na casa do João da Quinta e abancava durante algum tempo. Não dava muita despesa, porque água nem para beber e se fosse preciso dormia aconchegado com as ovelhas. Quando aparecia significava que estava de boas relações com a sua Zundapp 50, porque quando ela resolvia não pegar atirava-a por um barranco e lá ficava durante uns dias, até as saudades apertarem e o mecânico lhe explicar que sem gasolina a sua querida não funcionava. Durante a estadia na quinta onde a família do primo vivia e trabalhava, tinha uma casa-de-banho particular: o terreno baldio junto à casa onde vivia o adolescente mais responsável da zona, o menino Peidão, que assistiu, impávido e sereno, a este ritual do primo do seu amigo, que nem para cagar tirava o chapéu. Parecia um urubu, todo vestido de preto. A sorte do primo, surdo-mudo e com um só neurónio, do João da Quinta mudou na altura em que o Peidão ganhou uma espingarda “porção-de-ar” Diana 38, tornando-se um snipper. Logo na primeira “chumbada” saltou o chapéu do cagador, que ia caindo, com o impacto, para cima do produto, pois tentara agarrar o penico que estava na cabeça e que fugira, vá-se lá saber porquê. Ajeitou-se e voltou à posição de cócoras, sinal de que ainda tinha a tripa com favas. Na segunda chumbada desequilibrou-se e desceu o morro com as calças arreadas, desaparecendo no meio das alcachofras. O Peidão empoleirou-se na varanda mas não o viu. O tiro parecia ter sido fatal. Quando o adolescente se preparava para guardar a “Diana 38” viu um vulto a erguer-se furioso com o fato pintado de picos, chapéu na cabeça e a gesticular, correndo em direcção à quinta. Nunca mais usou o exterior da quinta para largar os feijões, tendo optado pelo conforto e segurança do cercado das ovelhas.

Wednesday, March 24, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 29 - Simplesmente Ginja


-->
Comandante Guélas

Série Paço de Arcos
Desde aquela tarde em que o Ginja subiu ao interior da roulote dos santos gémeos de Paço de Arcos, o Pierre Pomme-de-Terre e o Mocho, o primeiro fast-food da Costa do Estoril, imitado mais tarde pelo Mac Donald’s, rapazes de uma vida tão variada e ocupada, a vila nunca mais foi a mesma, tudo se alterou. Como cliente número um tinha direito a um prémio, ideia mais tarde copiada pelo IKEA, que consistiu num cachorro duplo, com salsichas adquiridas na Casa do Adro, e registadas no “Livro de Fiados” em nome do Palitó, o barbeiro que uns dias antes tinha adquirido ao Pierre Pomme-de-Terre uma soberba caçadeira com os canos dobrados, que o vendedor garantira servirem para “caçar coelhos nas curvas”. As consequências desta salsicha extra estão ainda por contabilizar, mas é um facto que o senhor Ginja nunca mais deixou o serviço da causa pública, mantendo inalterada a sua aparência física. O tamanho do enchido depressa chegou aos ouvidos do único capitão de Abril da vila, que pensava que não existia nada mais poético do que ter um gostinho com um imberbe ao pôr-do-sol. E este adolescente multifacetado, com uma linha melódica no andar e uma percepção global da vila, tinha todas as qualidades para ser o “elo perdido” da fonte de que sempre bebera. Dentro deste militar frágil, brando, meditativo, de tempos lentos, noites mal pisadas e cuecas rendilhadas, estava atravessada na garganta uma enorme espinha chamada Estalinho, que o obrigara a passar uma noite solitária em plena serra da Malveira. Tudo se precipitou quando o velho militar soube que a trufa em forma de adolescente tinha os dias contados no continente, e um bilhete de regresso ao quartel nos Açores. Era agora ou nunca! Mas onde raio se metera o filho do tio Chico? O Peidão, um rapaz com queda para as causas humanitárias, soube do desespero do amigo e prontificou-se a levar o convite ao Estalinho, que estava a banhos na piscina do Forte de São Julião da Barra, local de acesso restrito, que obrigava sempre o Ginja a ir no porta bagagens do mini da mãe do Peidão. Quando o Estalinho, um macho lusitano, recebeu a carta secreta do militar teve um ataque de caspa e quis rasgá-la, acto prontamente impedido pelo amigo, o mais sensato adolescente alguma vez nascido e criado na Costa do Estoril. Se o Estalinho não respondia à proposta veloz do amigo de meia-idade ele, Peidão, responderia em nome do Estalinho. Dito e feito:
Aceito
Local: “Farta Pão”
Horas: 20H35
Quando o militar recebeu de volta o papel entrou num transe dedicado à satisfação desenfreada dos vícios da luxúria e da gula, antevendo já o Estalinho a explodir-lhe nas mãos. O dia seguinte foi longo, muito longo, prolongou-se para lá das 23 horas na serra da Malveira, esperando e desesperando em vão pela sua bombinha de Carnaval que nunca chegou, atitude esta que levou a um corte de relações abrupto. Foi nesta altura que o Ginja apareceu, tal qual um D. Sebastião, envolto em prazeres interditos pela moral puritana da Paróquia, praticando uma panóplia de actividades clandestinas, que atraíram de imediato o militar, esquecendo, como que por milagre, o maldito Estalinho. Mas este adolescente era diferente, muito diferente, curioso, muito curioso. A cena seguinte desenrolou-se na Régua após uma atribulada descida do rio Douro. Os guerreiros instalaram-se num bar de apoio da piscina do Clube de vela, graças à excepcional diplomacia do militar, que também fazia parte da tripulação, e desfrutaram de umas merecidas férias. O Ginja deu logo nas vistas com os seus ousados mergulhos, pondo as fêmeas da fauna local em delírio. E uma delas destacou-se da matilha. Apaixonou-se de imediato pelo Apolo de Paço de Arcos, que a convidou para uma saída nocturna, mas logo ali surgiram dois constrangimentos: o irredutível pai da noiva e o ciumento militar. O segundo contentou-se com umas irresistíveis massagens dadas pelo nosso herói, que usou como creme repelente de mosquitos, e o primeiro foi ultrapassado com uma visita inesperada do pretendente à casa do sogro. Vestiu a melhor roupa disponível, usou o mesmo creme como brilhantina e o resto ficou a dever-se à sua já famosa prosa, capaz de arrasar com qualquer um. O velho caiu na lábia e a noite foi passada à borda da piscina, com promessas de uma vida futura numa mansão na paradisíaca Terrugem. A compra do vestido para o casamento foi logo ali marcada para a tarde do dia seguinte, sabendo já o artista que iria embarcar na carreira da manhã rumo a Lisboa.

Tuesday, March 23, 2010

Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 28 - O Burro da Pradaria



-->
Comandante Guélas

Série Quitéria Barbuda

O João era um adolescente que só admitia no seu quintal cães com pergaminho e quando resolveu que tinha chegado a altura de cruzar a sua pastora alemã, escolheu o cão que era praticamente do Peidão, o Bugio, um soberbo macho da mesma raça, inimigo juramentado do Torpedo, o maior rafeiro do Alto de Paço de Arcos, propriedade do célebre gang dos dez manos, que tinha uma raiva compulsiva ao Pitrongas, um flamingo da raça humana. No dia D o João tapou o ganha pão da sua pastora com uma perícia lenta de artífice, pois desde que ela entrara no cio ele via pesadelos no horizonte com rafeiros sinistros, que roubavam virgindades num latir , e dirigiu-se para a toca do Bugio, pronto a enfrentar o desafio dos limites. A cadela foi à trela, com disciplina severa de prisioneira. Já se via dono e senhor de uma soberba ninhada de arianos, subversivos no melhor sentido, abafadores de gatos, de rafeiros e de carteiros. Mas a vida sempre fora mais imprecisa do que parecia. Resolveu passar pela praceta para também ele desfilar os seus genes, desta feita castelhanos. A zona borbulhava, alguém tinha gamado o cachimbo da mota de um inimigo de Caxias, e estavam todos frente a frente para o combate, um já se encontrava na fase do “agarra-me se não eu mordo”, mesmo estando solto, e as meninas iam-se sentando para assistir à luta de galos…galitos cocós! A namorada do Graise distraiu-o com a sua sensualidade e a cadela entrou no jardim para se aliviar. Ao fundo, muito ao fundo, o Fiorde, um rafeiro aristocrata, dormia a sono solto, até que as contingências da fisiologia canina chegaram ao seu olfacto de cão de rua e o despertaram para a realidade. Havia uma fêmea a chama-lo para a perdição e ainda por cima no seu território. Ainda mal se levantara e já uma precoce encharcava o pano de cozinha que fazia a vez do lençol. Quando a pastora alemã o viu nem queria acreditar que o semelhante se dirigia para si em cinco patas, com a extra a arranhar o chão. Fez de imediato uma inversão de marcha e preparou-se gulosa para o embate. O cacete do Fiorde dobrou quando deu de caras com o saiote e o rafeiro arregalou os olhos. Tentou todas as manhas do Kamasutra, mas o chouriço teimava em dobrar, para desespero da fêmea. E quanto mais tentava mais desesperava, as meditações viscerais toldavam-lhe a razão. Mudou então de estratégia. Lembrou-se da máxima do seu avô, o Piloto, que dizia que enquanto tivesse língua e dedo não havia cadela que lhe metesse medo. Afocinhou de imediato, e com tanta força que acabou por esfrangalhar o cinto de castidade, ficando com o caminho livre para o pecado. A pastora até uivou ao sentir o Fiorde todo dentro de si, pois a galga era tanta que ele parecia que tinha entrado sem despir o fato. Foi nesse momento que o dono deu pela falta da sua preciosa cadela e no estado em que os dois já estavam nem sabia quem era um e quem era o outro. Teve de ser agarrado pelos amigos, porque o que lhe ia na alma não era benéfico para a saúde do experimentado Fiorde. Entretanto, no alto de Paço de Arcos o Bugio já substituíra a dama pelo vagabundo do Bóbi, o cão do Zé dos Porquinhos, senhor de uma soberba cauda encaracolada, que lhe facilitava sempre o caminho para a luxúria. E a cena passava-se, como já era hábito, na relva e perante o olhar reprovador do avô do Peidão, um general que vociferava sempre quando se deparava com estas cenas de sexo explícito. O Bóbi reclamava sempre quando o Bugio não o respeitava, mas não tinha outro remédio senão aceitar as contingências da natureza, que fizera um pequenino e o outro um matulão, com um rosnar que o mantinha em sentido e sem hipóteses de fuga. Quanto ao João, que estava imobilizado, não teve outro remédio senão esperar que o Fiorde soltasse a sua pastora alemã, acabando o dia a rezar para que a traição não vingasse. Mas vingou. Algum tempo depois uma nova ninhada deu os primeiros passos à luz do dia e depois de distribuídos pelos novos donos, dois canídeos se destacaram desta improvável união, o do Milhas, o Sinai, o único com um tufo a meio dum olho, que iria ter um conflito permanente com o gang dos dez irmãos, seus vizinhos, e o cão do Zé Pincel, cujo nome não ficou para a história, a não ser as suas enormes orelhas que o baptizaram para sempre como o Burro da Pradaria.


Sunday, March 14, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos - 27 - Rocky Vargas


-->
 Comandante Guélas
Série Paço de Arcos 
Após o fim da comissão de serviço nas tropas especiais dos Pára-quedistas, onde foi ajudante de cozinha, o Conan Vargas fez uma entrada de leão em Paço de Arcos, tentando assim impressionar todas as fêmeas que tivessem a sorte de se cruzar com ele. Ainda tentou fazer os exames nacionais do 2º ano do Curso Complementar dos Liceus, mas não conseguiu, mesmo depois do Pontas lhe ter dado as provas, que tinham sido gamadas uns dias antes e andavam a circular por todo o país. Mas o treino de Rambo que circulava nas suas veias levou-o para outras paragens, o Circuito Nacional de Boxe da décima divisão, onde valia tudo, até tirar olhos com as luvas calçadas. Pediu ajuda aos amigos para os treinos e montou um ringue na garagem da casa da mãe. O primeiro a enfrentá-lo foi o Graise. Em cima de um escadote o árbitro Chico Sá deu o sinal para o primeiro “round”, através do som estridente de um despertador. O Conan tinha soletrado um livro técnico da modalidade na véspera e aplicava agora os gestos técnicos aprendidos, através de abanões malandros da cabeça, enquanto que o adversário não conseguia parar de rir. Reclamou com o árbitro a atitude anti-desportiva do Graise e distraiu-se. Levou dois directos e três ganchos, todos a seco, e o despertador tocou. Quis repetir o combate, mas não foi autorizado. Limitou-se a esperar pelo próximo cliente, que tinha acabado de descer do escadote e estava a calçar as luvas. Em altura encontrava-se agora o árbitro Peidão a dar corda ao relógio, que teve o cuidado de perguntar ao Conan se queria descansar um pouco, ao que ele respondeu “não”, porque aquilo não era para meninas. Não disse mais nada, o apito tocou e o Chico Sá enfiou-lhe a mesma dose que o mano, dois directos e três ganchos, mas com uma pequena variante, os últimos foram todos molhados. E nem teve tempo para abanar o capacete. Quis a desforra, mas os amigos recusaram-se, com receio de lhe porem em risco o futuro no Circuito Nacional de Boxe da décima divisão.
Noutro canto da vila de Paço de Arcos, o Focas das Docas treinava afincadamente a mesma modalidade, para entrar no mesmo campeonato. Mas os treinos de combate eram feitos com membros de outros gangs. E foi numa dessas ocasiões que deu tudo para o torto. Era noite, e alguns membros do Gang de Paço de Arcos estavam em ronda pelas capelinhas habituais, quando resolveram ir verter águas numa discoteca de rabichotes, cujo nome era “Finalmente”. Estavam descontraidamente nos urinóis a despejar as cervejas, quando deram de caras com um desconhecido que estava a tirar-lhes as medidas aos cacetes:
- Ó boneca, se continuas a olhar para o que não é teu, mijo-te para as pernas, – avisou o Focas, tentando acertar-lhe de longe.
A Fofinha ficou tão ofendida que saiu a correr e foi fazer queixa ao segurança. Quando o Ganguinho ia a sair do estabelecimento comercial, foi barrado por um calmeirão, que se identificou como o Rui Nazi, e lhes pediu explicações sobre o sucedido com a Fofinha. Não teve tempo para mais nada, pois o Focas presenteou-o com um gancho tão colocado, e na máxima potência, que o atirou, em voo, de encontro a uma montra, que não resistiu ao embate e se desfez em mil pedacinhos, tendo o Rui ficado a dormir no seu interior. O Focas estava agora apto para subir ao ringue e trazer muitas alegrias e taças para o Comandante Guélas.
Foi numa noite fria e chuvosa que os dois tubarões iniciaram a sua participação no Circuito Nacional de Boxe da décima divisão. Local do ringue, Talaíde ! A claque era numerosa e a sala um pouco apertada. O aspecto era de cortar à faca, todos temeram pela vida do Conan Vargas, o ex-Pára-Cozinheiro. Quanto ao Focas, o azar estava do lado de quem o iria enfrentar. Aviou todos os que se atravessaram no seu caminho e levou a taça para casa. Do Conan não se pode dizer o mesmo. Logo no primeiro combate resolveu abanar o capacete e comeu inúmeros secos e molhados, até ser raptado pelos amigos, que o levaram directamente para casa. Na manhã seguinte lá apareceu no café e quando estava suficientemente rodeado de fêmeas, presenteou-as com o filme de uma formidável noite em que conseguiu vencer todos os concorrentes por K.O.

Thursday, March 11, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 26 - De Cascais a Paço de Arcos na Deusa


-->
 Comandante Guélas
Série Paço de Arcos
 
Ainda a noite era uma menina e já cinco paço-arcoenses, de boas famílias, tentavam entrar na boite “O Farol”, pelo lado do mar. E tudo por culpa do Max (o porteiro), que não os tinha deixado entrar pelo lado legal. Mas (e as epopeias começam sempre por um “mas”), nessa noite o Rodrigues (o proprietário) resolvera ir descansar a bebedeira para o lado errado (costumava estar no Bar, ao cantinho, junto ao Escalar, o maior peixe do aquário, que o Pacheco costumava aprisionar num copo em cima da mesa – um peixe muito rijo), e deitara-se junto ao sofá da janela panorâmica de entrada da malta paço-arcoense. Caso tivesse fechado, o Pacheco entraria pela porta legal e puxaria os ferrolhos. Mas nessa noite estava tudo ao contrário! E foi por causa disso que o nosso muito estimado Mac Macléu Ferreira acabou a noite à beira de um ataque de nervos (ao contrário do rally da TAP, nas célebres noites da Penina, onde fora dormir para o Hospital de Cascais). De cada vez que um dos artistas tentava entrar, dava de caras com a focinheira do tio Rodrigues, que estava mais para lá, do que para cá. Era indecente!
- Olha, uma luz aqui em baixo, – alertou o estudante Focas, descobrindo uma pequena porta de madeira.
Durante tantos anos, tantos paço-arcoenses tinham subido pela janela panorâmica nº 1 e nunca haviam reparado naquela humilde portinha. E como a rotina é sempre a grande inimiga da segurança, tinham-se esquecido de apagar a luz (talvez com a pressa ou com a mudança de empregado, para pagarem menos).
- É o armazém e está cheio de bejecas, – informou à rapaziada o estudante Pontas.
Esqueceram-se do Rodrigues e passaram a atenção para o armazém. Cinco minutos depois, já o estudante Focas forçava a entrada com uma humilde barra de ferro.
Crash – Crash
Um mundo de loirinhas passou a sorrir para aqueles devotos estudantes. Mac Macléu Ferreira ficou estático de prazer, antevendo já outra passagem pelo Hospital de Cascais, para receber mais uma dose de glicose. Mas depressa voltou à realidade e anunciou:
- Vou buscar a Deusa (um fantástico e robusto Citroen Dyane – que saudades!).
Antes da Deusa foi atestado um Peugeot que acabara de chegar com mais paço-arcoenses. Dava para todos, respiravam os ares da Liberdade, e o Rodrigues não passava de um porco fascista, explorador de estudantes do povo trabalhador, mesmo que fosse filiado no PCP. Deusa atestada e aí foram, rumo à Pátria do Comandante Guélas.
Dentro do bólide nem se respirava, devido à Tara. Estavam no Verão e, por isso, o tecto ia escancarado. Faziam-se contas! Mac Macléu Ferreira queria 50%, alegando ser o proprietário do veículo de transporte. Deu-se início a um grave problema laboral. Depois do 25 de Abril, todas as profissões tinham sido legalizadas, incluindo a de Estudante-Ladrão. O patrão tinha direito a 20%, igual a todos os outros. E a gasolina, quem a iria pagar?
- A tua mãe, – informou o Pontas.
O barulho da mesa redonda foi interrompido pelo estilhaçar de uma “bejeca”, de encontro à estação do Tamariz. Mac Macléu Ferreira nem queria acreditar no que ouvira.
- Quem é que atirou a garrafa? – Perguntou, largando as mãos do volante, voltando-se para trás, e reduzindo para terceira, a 110Km/hora.
A Deusa abriu a boca, gritou desesperada, mas continuou, implacável e severa.
- Garrafa!? Qual garrafa? – Questionou o Bajoulo, mostrando uma grade cheiinha, enquanto escondia a outra atrás do Peidão.
- Pareceu-me ouvir o barulho de uma garrafa a partir-se, – respondeu Mac Macléu Ferreira, pondo de novo a quarta, desta feita a 112Km/hora.
- Além de míope, estás a ficar surdo – informou o estudante Focas, ao mesmo tempo que arremessava a segunda “bejeca” para os pés de um casal de “camones”, que apreciava as noites de verão de S. João do Estoril. Ainda o Mac Macléu Ferreira se preparava para tirar, novamente, as mãos do volante, reduzir para terceira a 114Km/hora e virar-se para trás, e uma granizada de “bejecas” se precipitava de encontro ao castelo, que aparecia sempre depois de S. João. Os óculos do Mac, os olhos e a barba eriçaram-se e tentaram comer vivos os autores de tão vil acto.
- Para a próxima paro o carro e saem todos, – ameaçou Mac Macléu Ferreira, antevendo uma noite de luxúria com a última grade de loirinhas. Mas as suecas queriam mesmo sair! A última abandonou a Deusa à entrada de Paço de Arcos, indo no seu encalço a grade vazia. Quanto ao Mac Macléu Ferreira, estava em estado de choque, devido ao barulho ritmado de “bejecas” de encontro ao passeio, a partir de S. Pedro. A curva foi feita à velocidade do costume, 120 Km/hora, com o pessoal de fora e a ajudar à inclinação. Que grande Deusa! Outros tempos, outra geração, com muita sorte ao volante.

Monday, March 08, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 25 - O netinho de oiro da Dona Ludres

-->
Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

-->
O segundo sobrinho do Peidão nasceu como o primeiro, o Cabeça de Ananás, contra todas as probabilidades, pois naquela altura não passava pela cabeça de nenhuma menina de bem, caucasiana, acabar o liceu grávida. E para desespero da Dona Ludres, senhora absoluta da “Casa do Morro”, e contra toda a estatística, ambas as filhas fizeram-na avó mais cedo do que ela alguma vez sonhara: aos 38 anos! A mais velha de um artista com cabelo de caniche a tocar nos ombros e chinelos ortopédicos, cujas unhas riscavam o chão de tijoleira da sogra e a outra de um cabo, da mesma arma que o sogro general, que logo na primeira apresentação, depois de ter sido autorizado a entrar pela porta da cozinha, fez aquilo que ninguém daquela casa conseguira, sintonizar o vídeo da Dona Ludres. Subiu tanto na consideração da generala, que a partir daí tinha sempre, todos os domingos, um rolo de carne à sua espera. O Polifemo, nome com que passarei a referir-me ao filho deste cabo atrevido, meu sobrinho mano, passou a ser criado segundo os cânones da Dona Ludres, ou seja, a fazer tudo o que lhe apetecia, sempre com as costas quentes da vóvó. O outro, o Cabeça de Ananás, estava entregue a outra esposa de um general, a Milu, mãe da Ludres, e a educação era similar, deixando o pobre do Peidão, um menino de oiro de verdade, e agora tio destas duas aves raras, à beira de um ataque de nervos, tentando transmitir alguns valores a estes ciclopes prematuros. A primeira aventura do Polifemo, que levou o tio Peidão a pôr-lhe as mãos no pescoço, sendo salvo in extremis pela avó Ludres, foi quando ele partiu a pata da cadela pequenina, encontrada a vadiar lá para os lados da Ota, dando como desculpa que caiu em cima dela. O netinho de oiro da Dona Ludres estava nesta altura, e assim se conservou durante muito tempo, com o formato de leitão, razão para esmagar qualquer animal que se cruzasse com ele, mas o Peidão desconfiou que ele enfiara um biqueiro na Nazaré, só para mostrar quem é que mandava ali. A vóvó jurou sempre que não, o coitado do petiz estava a correr com a bicha e ela entrelaçara-se nos seus presuntos, obrigando-o a uma aterragem forçada nos paralelepípedos do jardim…com o canídeo pelo meio. Este incidente fez a Dona Ludres rever toda a educação do petiz, visto que o cabo não mandava nada e a filha estava sempre na garagem a pintar quadros, nesta fase aproveitando os trapos que o avô deitara para o lixo, como telhados das barracas desenhadas. Seria uma visionária, uma Pintora Ecológica? Retornemos à reeducação do Polifemo. A generala decidiu que ele iria esgalhar para um piano, para assim gastar parte das energias na cultura. Já se via, orgulhosa, a assistir ao primeiro concerto deste netinho de oiro: a tocar juntamente com a Banda da Força Aérea, para ela e para as amigas, na varanda da sua casa, com o Tejo como testemunha! Mas o que está nos genes é para seguir o seu destino, e o piano ainda existe, após ter resistido às investidas do verdadeiro general que tentara fazer dele uma bancada num dos quartos da cave, com torno e tudo. Quanto ao pianista, passou a usar as mãos para outras coisas mais agradáveis, incluindo a célebre cena do jipe, que lhe ia custando a estadia no planeta. Estaria agora a tocar harpa numa nuvem qualquer perto de si…e a cuspir para cima das velhotas. A história é simples, o papá, ex-cabo e agora professor de uma universidade, pedira emprestado ao sogro o seu jipinho de estimação, para ir buscar um cadeirão que a sua esposa, que insistia em pintar soberbos quadros, agora aproveitando as caixas de ovos do Continente como telhados para as mesmas barracas, comprara no IKEA. Após o serviço foi interceptado pelo Polifemo que se prontificou a devolver o carro ao avô, para que o pai pudesse ir descansar da árdua missão que a mulher lhe confiara. O cabo torceu o nariz, pois o currículo do filho ainda tinha muitas letras a vermelho, mas como o jipe também não era seu e a sua tripa estava a fazer barulho, lá entregou as chaves ao Polifemo, agora um “adulto responsável”, pensou. Quando o netinho de oiro entrou na última curva antes da garagem do avô, perdeu o sentido mais sóbrio da realidade e da sua proporção, colocando o acelerador a beijar a carpete. Nem a curva o fez mudar de ideias, os neurónios estavam amontoados na nuca e das orelhas sairam espessas nuvens de fumo. O jipe de estimação do avô Jorge, general da Força Aérea, levantou voo quando sentiu o murete, deitando-se de seguida de perninhas para o ar. Quando o Polifemo acordou, com o barulho de um líquido, pensou que iria transformar-se num conguito, que lhe valeria uma expulsão da casa da Dona Ludres, tal qual como o Teodorico Raposo da “Relíquia” do Eça de Queirós. Como a Dona Patrocínio das Neves, perdão, Dona Ludres era avessa a modernices, pois para semelhanças com um conguito já lhe bastava o cabelo do Cabeça de Ananás, estilo carapinha, mas que ela insistia ser da raça caniche, o netinho de oiro fugiu do local do crime e entrou em pânico na casa do Tio Peidão que, mais uma vez, teve de se conter quando deu de caras com o veículo do papá, que se encontrava ainda longe da cena. E para acabar, só mais um pormenor: a Dona Patrocínio das Neves, perdão, a Dona Ludres, que estava sempre a dizer mal do jipão do general e a elogiar o seu Nissan, entrou em estado de choque e passou a noite toda a clamar pelo “meu jipe, meu jipe, meu jipe, o que vai ser de mim ter que ir às festas das minhas amigas, não no jipão, mas no traste do Nissan”!

Wednesday, February 17, 2010

Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 24 - Chefe-Bigodes versus Mac Macléu Ferreira



-->
 Comandante Guélas
Série Paço de Arcos
 
Ia o chefe Bigodes calmamente na sua “Casal Boss”, na rua Lino de Assunção, quando ao seu lado apareceu o célebre Mac Macléu Ferreira numa “Zundapp 50” com escape de rendimento, óculos ao vento e cabeça ao léu.
- Alto e pára o baile, – gritou o agente da autoridade para o motociclista rebelde, que o ousara provocar.
- Vai-te catar ó Bigodes. Aposto que não me apanhas? – Desafiou o infractor.
- O quê, dúvidas da minha “Boss”?!
- Julgas que esta “Zundapp” é aquela com “cranage e banco de competição”, feitos com restos dos caixotes do Manel da Fruta, em que eu subia a minha rua, com a ajuda dos pés?
- Ainda tenho na secretária as queixas dos teus vizinhos, a protestarem pelo barulho do teu escape de rendimento às 5 da manhã. Hoje vais pagar por tudo!
E deu-se início à perseguição mais famosa de Paço de Arcos. À frente Mac Macléu Ferreira desafiava a autoridade, atrás a autoridade tentava apanhar o Fangio de Paço de Arcos. Para trás ficara a passagem de nível, aproximava-se agora a rotunda da Estação. Mac respeitou a Lei e foi pelo lado certo, o representante da Lei desrespeitou a Lei e foi pelo lado errado, tentando barrar a corrida ao nosso herói. Quando o da “Zundapp” viu o da “Boss”, atirou-se para cima deste e simulou um acidente gravíssimo. Ficou no chão a queixar-se da tentativa de assassinato, que só podia ser político! As testemunhas, que estavam à espera da camioneta para o Pimenta, chamaram a polícia e acusaram o Bigodes.
- Assassino, onde é que já se viu um agente da autoridade em contra-mão? Coitadinho do rapazinho loirinho, e ainda por cima “caixa-de-óculos”, ia morrendo. Assassino!
A “Boss” foi no porta-bagagem toda amassada, e a “Zundapp” estava rija que nem sarda. O Chefe pediu desculpa ao cidadão Mac Macléu Ferreira, vítima de abuso da autoridade, fez-lhe continência, e avisou o Bigodes de que o ia amassar quando chegasse à esquadra.

Tuesday, February 16, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 23 - Pitrongas versus Torpedo



-->

Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

As relações entre o Torpedo e o Pitrongas foram sempre muito conflituosas. Mesmo depois do primeiro ter tido um ataque cardíaco enquanto bebia água na sarjeta. O segundo insistia em subir a rua José Ferrão Castelo Branco em vez de ir dar a volta por Caxias. A teimosia era tanta, que teimava em vir sempre a cavalo da sua Honda 50 de cor preta, desenhada para gente normal e não para um flamingo de um só neurónio. E o mais grave era que o barulho do escape apanhava sempre o Torpedo em sono profundo, um canídeo com um acordar difícil. Nestas ocasiões encaminhava-se estremunhado para o passeio, agachava-se e esperava pela ave rara.
Taka Taka Taka
Roncava a dita do Pitrongas, que atingia a vertiginosa marca de 30 Km/h. Mas havia um problema. O canídeo chegava aos cinquenta, fruto de muitos treinos durante as fugas ao motorista da quinta ao lado, o senhor Manuel, quando cinco dos seus dez donos resolviam encher a porta da Sesaltina de lixo e carregar na campainha.
Taka Taka Taka Taka
O escape parecia agora uma charanga, sinal de que o Pitrongas estava perto da curva, já com o pisca direito ligado, que indicava ir dar uma seca à tia. A simbiose mota/condutor dava o aspecto de um morcego e as pernas em abdução pareciam asas. Os ramos das árvores dobravam-se com a força do vento. O Torpedo absorveu um largo trago da sua baba, enquanto que na outra ponta da rua o pai do João da Quinta deu um gole no vinho carrascão, que era a única maneira que tinha para se manter vivo. Tudo se demorava: o barulho do escape do Pitrongas e o bater ansioso do coração do Torpedo, com a boca tingida pela raiva e as lágrimas a escorrerem-lhe pelo focinho, fruto de um ódio de estimação. Até que uma sombra esguia, projectada pela luz do candeeiro da retaguarda, se estampou no passeio. Era o anúncio de mais uma noite estragada para o Pitrongas. Quando a mota e o flamingo se aproximaram da curva, não eram mais do que uma mancha escura que fazia lembrar um sapateiro viúvo com uma luz laranja, estilo pirilampo, a piscar para a direita. Os olhos do Torpedo concentraram-se na figura rabiscada do motorista. Nesta pequena curva, que tinha logo uma contracurva e um entroncamento no meio, havia naquele momento um conjunto de tensões. Quando o cheiro do Davidoff do Pitrongas chegou ao nariz do rafeiro, os seus neurónios entraram em curto-circuito. Uma raiva profunda perpassou-lhe ao longo da coluna vertebral, eriçando-lhe os pêlos, ao mesmo tempo que o intestino entrou em terríveis convulsões, cujo barulho era abafado pela charanga do Pitrongas. Foi a potência do escape do canídeo que o atirou, de boca aberta, de encontro ao tornozelo do costume, o esquerdo, e lhe arrancou, como já se tinha tornado hábito, parte da meia da marca “CD”.

Saturday, January 30, 2010

Comandante Guélas - Série ISEF 1 - O Regresso da Turma 2


Comandante Guélas
Série ISEF 1
O Instituto era Superior e situava-se numa das zonas vermelhas da capital, a Cruz Quebrada, atravessada pelo inebriante Jamor. No ano de 1981 apresentaram-se na Turma 2 vinte e seis indomáveis estudantes, vindos dos quatro cantos do país, tendo sido atribuído o número 1 a um careca traficante de fotocópias e o número 26 a um avatar que gostava mais de ir treinar abdominais com a Marreca de Monsanto, do que exercitar a cambalhota nos colchões do stor Palmada.

No dia 9 de Janeiro do Ano da Graça de Nosso Senhor de 2010 tornaram-se a encontrar num restaurante da Capital com decoração alentejana. Quando flanquearam a porta a alma do velho Xarope não aguentou dar de caras com uma vara de alentejanos em cima de um palco, todos coladinhos a grunhir em voz alta e a roçarem-se uns nos outros num movimento balanceado ora para a direita ora para a esquerda e gritou:
- Morte aos panilas, - ao mesmo tempo que era vítima de uma convulsão traiçoeira, que o obrigou a placar, tal como o tinha feito no século passado ao seu colega Bruxedo, o grupo de reformados da apanha da bolota.
Os gerontes nem tiveram tempo de guardar as dentaduras e acabaram por cair em cima do assessor Anselmo, que se tinha escondido atrás das cortinas para que não fosse confundido com aquela trupe de trapezistas capaz de lhe arruinar a sua carreira política, construída à sombra da Lurdes e do Valter, obrigando-o a voltar para a escola, de que fugia como o Diabo da Cruz. O homem das Caldas aproveitou o caos e tomou conta do palco, aproveitando o momento para mostrar aos clientes a sua já lendária queda para a dança, tão bem classificada na já longínqua cadeira temática. O proletário Pedreta já ressonava a sono solto e só acordou quando um jarro de tinto e cinco dentaduras se despedaçaram na zona do seu córtex occipital direito, lançando de imediato uma série de impropérios , em chinês, sinal de que a queda sofrida há vários anos das Torres Gémeas da Fonte da Telha não estava suficientemente cicatrizada. O Chaparro, devido ao seu porte atlético estilo “Damatta”, nem a perna esquerda conseguiu mexer e assim permaneceu entalado na cadeira ao lado do Lopes, agora tão careca como o número 1 da Turma 2. Em frente destes estava o eclético Bezerra, recordista absoluto de e-mails, que agora só conseguia exprimir-se numa linguagem Itálico-Australiana, à mistura com o velho “Carago”, responsável pela sua comissão de serviço forçada nos Açores. O Barroso nem queria acreditar onde se tinha metido, agora que era o presidente dos espadachins da Cova da Moura e por isso fingiu que estava incontinente, aproveitando-se da idade como desculpa, e escondeu-se na casa de banho das senhoras, mais propriamente junto da sua colega Carocha. Quanto ao Catedrático de serviço, o Gil, não do Parque das Nações, mas do Jamor, aproveitou a pausa do jantar para elaborar mais um teste, com que iria lixar os alunos no dia seguinte. O Renato e o Roxo já tinham acabado a observação daquele estranho jantar de confraternização do Batalhão de Pinos e Cambalhotas e esperavam agora pela confirmação da nota dada pelo Quim, que deu finalmente um “Excelente” ao dançarino das Caldas, que lhe permitiu acabar a Licenciatura e ainda ter tempo para telefonar para o seu gerente da conta nas Caldas, para acrescentar o título de “Doutor” nos cheques que iriam ser emitidos no dia seguinte. As meninas, agora umas belas velhotas, especulavam sobre o paradeiro da amiga Valverde, tendo a stora Matos informado o Conselho de Anciões, que de imediato registou em acta, que a colega fora vista numa traineira lá para os lados da Mauritânea pelo Chico, agora dono e senhor de um veleiro atracado na marina de Oeiras. As storas Nascimento, Loureiro e Amado fizeram tricô a noite toda, sinal de que já tinham entregue os papéis para a reforma. Foi notada a ausência do stor Bruxedo, vítima de uma estranha troca de e-mails entre o Chaparrão, dono e senhor de Beja, e o proletário laranja de nome Pedreta, de Palmela. Este pedira ao outro a morada electrónica do stor-monga, mas fizera-o já depois do suíno da torre da Igreja ter tocado as badaladas da meia-noite, altura em que o Chaparrão, apesar de estar num Conselho Pedagógico, já se encontrar encharcado em sumo de uva, acabando por trocar o endereço e dar-lhe o do Aníbal, que compareceu no jantar com a Maria e os batedores, pensando ir encontrar-se com o Zézito para ambos discutirem o Orçamento de Estado. Quando o Anselmo o viu foi a correr ao seu encontro, chamando-lhe “colega”, mas escorregou numa dentadura tresmalhada e teve de agarrar-se à primeira dama, acabando ambos por cair no chão, um por cima do outro, como nas aulas do professor Palmada, onde o stor das Caldas brilhava com o seu cinturão azul e com o barulho das suas cambalhotas, que impressionavam sempre a Glorinha da cantina. A festa acabou com o Chaparro a ser levado para casa pelos verdadeiros colegas, numa carrinha de caixa aberta, com o Xarope a correr atrás e a gritar:
- No meu Algarve não entram panilas!
O judoca mais graduado deste gang, que ostentava um soberbo cinturão negro comprado no chinês, acabou a noite rodeado por moldavas, contando-lhes a sua comissão na Cruz Quebrada, onde se destacava a graciosidade como jogador de Rugby, a leveza de dançarino, a invencibilidade no judo, a flutuabilidade na Natação, a potência no Andebol, a impulsão no Basquetebol e outras características mais íntimas que só contaria àquela que o acompanhasse no Mercedes até à serra da Malveira, altura em que a obrigaria a pagar a gasolina, tal como o tinha feito à professora que ousara chumbá-lo na cadeira de dança do 2º ano. Foi notada a ausência da gestora Oliveira, presa no trânsito em Tóquio.

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 22 - Visita de Cortesia à Mercearia “Aveirense”





Comandante Guélas
Série Paço de Arcos
  
A Visita de Cortesia à Mercearia “Aveirense” de Silva & Sousa Lda.
Rua dos Fornos, nº 17ª/17B e 17 (números em metal) ou 17/17ª e 18 (números a tinta)
Em 1975, devido à crise de pretos (com a abolição da escravatura fugiram para África), os gangs em Paço de Arcos eram constituídos por brancos. Numa noite, já de madrugada, a Padaria “Aveirense” foi visitada por uma destas turmas, constituída por gente muito importante do Portugal actual. Recuemos umas horas, para tentarmos perceber o que levou aqueles “meninos de bem” a fazerem uma visita de cortesia à célebre Padaria. A noite ainda era uma menina, e a festa na sede velha do Clube Desportivo de Paço de Arcos ia de vento em popa. O irmão mais velho do primeiro marido da Tita-dos- Pés-Sujos, controlava a música, e debitava freneticamente os vinis gamados aos amigos, fazendo abanar o edifício. Até já um “Paçoarquiano” tinha dado um golo numa cerveja de litro, que estava escondida debaixo de uma mesa, mas em vez de cerveja bebera mijo, e do rijo, procurando desesperado os autores de tão alegre acto. Dois pigmeus de blusões negros, vindos de Porto Salvo, estavam parados junto ao Salão de Dança e tinham colocado os seus capacetes no chão, um em cima do outro, num local de passagem.
- Quem se atrever a tocar-lhes, morrerá – ameaçaram, coçando os tomates.
Nem dito nem feito! O nosso querido Milhas já se tornara no convidado mais chato da festa, pois ultrapassara a fasquia das cinco “bejecas” e andava perdido na dança, à procura duma vítima. Quando se cruzou com os capacetes deu-lhes um chuto à Eusébio, atirando-os para o meio da multidão. O anão mais próximo nem teve tempo para o homicídio, pois o Milhas agarrou-se de imediato a ele e levou-o para a dança, talvez confundindo-o com a “Huga Huga Lagosta”. Entretanto, o Velhinho conseguira deitar a mão a uma caderneta com senhas de produtos que estavam junto ao homem da caixa, e estava a distribui-las pelos amigos. A azáfama no Bar era enorme, os produtos esgotaram-se num instante.
- Isto é que foi um grande negócio, vendemos tudo! – Disseram os responsáveis, fazendo um sinal com o polegar para o colega que estava na outra ponta da sala, mais propriamente na caixa.
Mas festa em Paço de Arcos não era festa, sem uma carga de Litopol (Ácido Muriático+Litopol). E, como sempre, foi fatal! A noite já ia longa quando o Gang foi arejar para o exterior, encostando-se à “Padaria Aveirense”. O pior foi quando as bexigas começaram a apertar e a vontade para mijar atingiu a “redline”. A pouco e pouco os membros do Gang viraram-se para a parede do estabelecimento comercial e começaram a verter águas. Os que tinham só parede, para a parede olharam, mas os que ficaram com as janelas à frente da cara, depressa descobriram que a loja estava recheada de guloseimas, que davam muito jeito aos estômagos vazios. Cinco minutos depois, o Gang de brancos estava ao balcão da “Aveirense”. Mais cinco e já todos corriam em várias direcções da vila, levando nos bolsos rebuçados do Doutor Bayard, Sugus, Chocolates “Sombrinhas”, queques, amendoins, favas fritas, Vinho Rosal, Rebuçados “Bola de Neve”, Tabaco, e tudo o mais que viesse à rede. A única pista foi dada por uma testemunha anónima que viu um indivíduo, às três horas e dez minutos, com um caixote de produtos à cabeça, junto à linha do comboio. Consta que era o célebre Focas das Docas!