Sunday, April 26, 2009

Comandante Guélas - Série Quitéria Barbuda

O dia em que o Capitão arrumou as botas


O tempo era de mudanças, a Velha Geração de jogadores formada na Praia de Carcavelos, com o esgoto a servir de linha lateral, estava a receber novos reforços, filhos, sobrinhos e amigos destes, que traziam uma nova dinâmica à modalidade, para pior, uma vez que esta juventude estava mais habituada aos copos sentados do que aos copos em pé, reflectindo-se estes maus hábitos na sua péssima condição física. E esta característica fazia toda a diferença neste tão popular desporto de “fim-de-semana com autorização escrita das mulheres”. Mas havia alguém que andava com a cabeça à roda por causa desta invasão de tenrinhos, aparecidos por geração espontânea. Eles tratavam-no com respeito, diziam “sim” aos seus convites para tertúlias em sua casa, mostrando serem muito diferentes da Geração Rasca dos pais e dos tios, como por exemplo o Chico Sá, que perguntava sempre aos amigos “Ouviste o eco?” de cada vez que a bola batia com violência no “bumbum” do Capitão. Os tenrinhos até o tratavam por “Tio Porão”! Ao aceitar o lanchinho do Capitão, o Tona revelava não estar com a lucidez necessária, nem nunca ter ouvido falar da história do “Capuchinho Vermelho”. Foi preciso passar algum tempo, deixar baixar a poeira, ganhar a distância, para que os amigos o confrontassem com a verdade. Este “inocente” convite do militar de Abril mudou para sempre a carreira futebolística deste jovem ingénuo e veio mostrar o fosso que separava aquelas duas gerações de “profissionais” da bola. O jovem careca não estava habituado a deparar-se sempre com um defesa adversário que protegia a sua área e a bola de costas viradas para ele. E tantas foram as vezes com que se deparou com um “bumbum” a convidá-lo para a luxúria que, tal como a Leonor do poema, acabou por partir-lhe a bilha, mais propriamente enganar-se e chutar no pé do velho, em vez de o fazer no esférico. Por momentos aqueles dois corpos, um tenrinho e o outro com caruncho, moveram-se, agiram, num único movimento sussurrante, tocando-se levemente no ar, num gesto que se aproximou dos outros coxos, com um virtuosismo técnico tão elaborado, que fez com que ninguém visse que o Milhas tinha tocado com as duas mãos na bola. O reencontro do Tona com o Capitão teve uma sensibilidade poética, que levantou a dúvida quando se deu o contacto do corpo rançoso com o solo e dele saiu um grito alucinante com diferentes interpretações:

- Foi um gostinho, – disse o Fininho.

- Deu o berro, – atirou o Chico Sá.

- Perdemos o guardião do saber e da memória de uma espécie de homem que um dia nos treinou para o Torneio de Futebol de 5 no Pavilhão de Paço de Arcos, – lamentou o Milhas, deixando cair uma lágrima.

- O Capitão é que se esborrachou, mas o Milhas é que está a delirar, – exclamou o Peidão.

- É falta do velho! – Sentenciou o único jogador lúcido, o Caramelo.

O caso não era tão simples e natural, tinha agora uma dimensão metafísica. A imagem do mais velho jogador de futebol de Paço de Arcos esticadinho no pelado, estilo bacalhau, iria ficar gravada para sempre nas memórias de todos, como um momento único, desarmante. Mas ninguém se apercebera das terríveis consequências, ao nível comportamental, que este espectáculo, simples e natural, iria ter sobre a Nova Geração. Dali para a frente tornaram-se diferentes. Fora preciso aparecer uma nova revoada de tenrinhos para atirar por terra e arrumar a excitante carreira futebolística do mais capitão de todos os capitães, a seguir ao Patrão Lopes. O dinossauro foi ao chão em decúbito ventral e por lá ficou no meio de estranhos movimentos de cobrição e dor. Quanto ao Tona, encontrava-se de pé debruçado sobre o ferido, sem saber o que fazer. A Velha Geração aconselhava-o, por gestos, a deitar-se sobre o moribundo, evitando que ele arrefecesse, e também como forma de compensação pelos danos sofridos. Mas o Capitão queria outro, o futuro médico e disse-o em estilo comando:

- Leva-me a casa!

Todos imaginaram a entrada do militar em casa ao colo do tenrinho, tal qual um par de recém-casados. A recusa do contemplado foi imediata e as atenções voltaram-se novamente para o Tona, que tentava escapulir-se da zona do acidente.

- Eu vim de mota, – desculpou-se, abrindo os braços.

- O ferido não se importa de ir sentado de lado, muito agarradinho, – esclareceu o Chico Sá.

Quem ajudou o Capitão a instalar-se no Mini e a desenrascar-se a partir daí foi o Choné, um jogador com uma perna-de-pau e uma careca maior e muito mais velha do que a do Tona. Quanto ao velho, não teve outro remédio senão pendurar as chuteiras junto às recordações de África, as caveiras de antílopes e as cabeças em pau-preto, com as cuecas do pelotão!

Monday, April 20, 2009

Comandante Guélas - Série Quitéria Barbuda





Jogadores à beira de um ataque de nervos


A tradição cumpria-se com mais um jogo a chegar ao final sem a intervenção externa da campainha. Pela milésima vez o Chico tinha atingido a “redline” e queimara as juntas da cabeça, colando-se à sombra do Tio Fininho, que estava impecavelmente vestido com um equipamento preto de árbitro da “Sexta Divisão do Batatinha”, o célebre Abramobatata do campo de Vila Fria, vizinho da lixeira camarária. O estado de alma do Chico reflectia-se no fumo que lhe saia pelas orelhas e na cor avermelhada que lhe forrava a “fácies”. Estava próximo de um ataque de caspa! Ao longe o papá, impecavelmente vestido com um equipamento do Sporting, que incluía meias e chuteiras verdes do Quaresma, tentava trazer o filho para a realidade, sabendo de antemão que tal seria impossível, porque a gasolina que tinha bebido no Algarve quando foi ao gamanço com o amigo chinês, depois de terem demorado a noite toda a desmontar uma cadeira feita de tubo de plástico, entranhara-se nos genes, não havendo nada que conseguisse apagar o tal risco profundo que, em quase todos os jogos, colocava o pequeno-grande Chico à beira do
Precipício.
- Não lhe ligues, o Fininho é assim mesmo!
Mas nada demovia o colosso de estar colado à sombra do “tio”. O mal dele era ter ido para o curso de Logística da Escola Náutica. Desde esse momento o Tio Fininho tornara-se muito exigente com os estudos do “sobrinho emprestado”, um rapagão que trocara os livros pelos copos, fazendo-lhe interrogatórios massivos sobre o comportamento da “Carreira 22”. Pelo meio ia-lhe agradecendo os golos que teimavam em entrar na baliza da equipa de que o colosso fazia parte, tendo como companheiro o inebriante Milhas, que teimava em dar orientações tácticas desde que o apito assinalara o início da partida. E no calor da discussão ninguém se apercebeu da saída intempestiva do careca de meia-idade, que tinha atingido o prazo de jogabilidade, em virtude de ter sido traído pela “claustrofobia por espaços vastos” que o impedia de respirar, compensando o défice com escarretas fininhas. Pelo meio o filho do Vaca Prenhe interrogava o Pequeno Polegar, de nome de guerra Biblot, sobre os motivos que o levavam a ir sempre disputar as bolas altas nas Grande Áreas. Mas o assunto da jornada era a grandiloquência do Chico, que teimava em Rosnar junto ao “tio”, enchendo-lhe o fatinho de perdigotos, e isto o jogador Fininho não tolerava:
- Não me diriges a palavra com a boca cheia de azeitonas, – indignou-se o jogador com equipamento de árbitro, apontando um indicador ameaçador ao “Colosso das Palmeiras”.
E nisto uma bola tresmalhada passou a rasar a cabeça do Milhas. Tinha sido o Rubi, que ainda não se apercebera que o jogo estava em “pausa”.

Wednesday, April 01, 2009

Comandante Guélas - Série Quitéria Barbuda




O “Caso Ramalho”

Quando o Peidão entrou na praia de Carcavelos na sua Yamaha 50 Mini-Enduro, tirou o penico de aviador que levava na cabeça e foi de imediato chamado por um dos agentes da GNR que estava junto ao restaurante “O Narciso”, na marginal. Como cidadão exemplar resolveu não fugir, atitude que lhe custou um belo dia de praia. Mas esperava que os agentes da autoridade tivessem bom-senso. Enganou-se! Foi de imediato acusado de ter vindo de casa com a cabecinha ao léu e por isso, contra a corrente que grassava no país, iriam aplicar a lei. Mas não contavam com a reacção do cidadão de nome Peidão, que nesta altura já tinha muitas preocupações ambientais. Trazia na carteira uma bomba atómica.

- Se este senhor pode andar à boleia da GNR sem capacete, eu também tenho esse direito, estamos em democracia.

O recorte da revista foi aberto e ficou à vista da polícia e do povo que entretanto se tinha juntado. O documento exclusivo do Peidão mostrava o Presidente da República, o Ramalho, a transgredir a lei, ainda por cima com a cumplicidade da GNR. O guarda ficou estático e sentiu o bafo do povo atrás de si, que se aproximara para ver a fotografia. Ouve risos e comentários de reprovação, afinal tinham votado num fora-da-lei.

- Montagem, isso é uma montagem, - acusou o mais graduado. – Vou passar-lhe uma multa por difamação.

- “Difama” quê? – Perguntou o outro.

- Este cidadão está a insultar o nosso presidente, - confirmou, olhando de cima para baixo.

A assistência já se ria, a cena já se assemelhava à de um circo. E agravou-se quando tentou agarrar na prova do crime, possivelmente para a fazer desaparecer, mas o cidadão passou-a de imediato a um amigo que a fez desaparecer.

- E eu não conheço esse agente que está na fotografia, não é da GNR, é falso. – Interveio o outro agente, parecido com o guarda Ricardo.

- Quantos são vocês na GNR? – Perguntou o caluniador do Ramalho, de nome Peidão.

- Para aí uns quinze mil, – respondeu o motociclista fardado.

A risada tornou-se geral, a autoridade tinha de tomar medidas. E foi o que fez. Definiu um perímetro de segurança. No livro de instrução para multas rodoviárias a “difamação” não constava. Era necessário contactar a central. Foi o que fez o chefe da patrulha.

- Alô, alô, aqui 24 chama a central, escuto.

Respondeu-lhe um ruído que um ressonar. Insistiu.

- Alô, alô, aqui 24 chama central, escuto.

Desta vez parecia um ruído de um balão a esvaziar. A risota era geral, o povo estava a ficar incontrolável.

- Temos de nos deslocar para uma zona mais aberta, - informou o chefe. – O senhor vai ter de nos acompanhar.

Uma BMW 750 à frente, uma Yamaha 50 Mini-Enduro no meio e outra BMW a fechar. Todos a 20 Km/hora, assim os obrigou o cidadão Peidão, alegando que a mota não dava mais. Os heróicos agentes da GNR foram obrigados a ir com as botas a arrastar pelo alcatrão, porque àquela velocidade tinham de ir em primeira e aos solavancos. Quanto ao povo, aplaudia o seu herói que ia nas garras da autoridade. Parecia uma cena da volta a Portugal em bicicleta. A caravana parou na zona do Motel, junto a uma cabine de telefone. Mas surgiu um problema. Ninguém tinha trocos. Até que um individuo numa Casa Boss 50 se aproximou do trio e identificou-se como agente da PSP de Oeiras. Foi posto ao corrente do crime e aproveitou para mostrar que era muito mau.

- Se quiserem tenho lá uma cela para ele, - atirando uma baforada de fumo contra aquele que ousara por em causa a honestidade do homem que enfrentara as bombinhas de Carnaval da oposição em cima de um carro e em posição de forcado.

Este reforço acabou por ser útil nos trocos. Quando a central foi posta ao corrente da situação, o cabo levou de imediato um cartão vermelho por andar armado em intelectual, e não se ter reduzido à sua condição de GNR com a 4ª classe. A infracção era por falta de penico e a multa era essa. O resto era estar a faltar às suas obrigações, que eram patrulhar a Costa do Estoril. Escusado será dizer que o papel unicamente serviu para o habitual, já que a partir de Junho só os otários pagavam as multas, como era tradição.